Vinland Saga #20: Sobre a estupidez da Guerra

Vinland Saga volume 20 sobre a estupidez da guerra

Talvez seja meio bizarro começar a fazer reviews de um mangá que lança de vez em nunca e ainda mais no vigésimo volume, mas acho que vale a tentativa, espero que vocês também.

Então, vamos falar do Vinland Saga #20.

Não é surpresa para nenhum leitor que Vinland Saga tem uma visão extremamente negativa da Guerra e dos próprios conflitos e solução violenta dos problemas.

Mas acredito que em nenhum capítulo isso ficou tão explícito quanto nesse.

Rei Knut em VInland Saga e sua visao da estupidez da guerra
A própria lógica distorcida do Rei Knut é prova da visão do autor.

Claro, a jornada percorrida pelo Thorfinn — de um moleque birrento, agressivo, pouco simpático, em busca de vingança, mas muito poderoso (e que se pensarmos um pouco, são as mesmas palavras que usaríamos para descrever o Sasuke) em um homem muito mais calmo, maduro, um pouco estoico e comprometido em não usar a violência em um mundo governado por ela — foi muito mais profunda e emocionante, mas o que acontece nesse episódio é simplesmente uma síntese de umas das ideias principais da saga (pelo menos em minha opinião):

Guerras são uma estupidez

O contraste entre os guerreiros que se veem como muito mais do que são, e o realismo daqueles que compõem a trupe de Thorfinn é ainda mais interessante, pois temos uma classe que governa pelo simples uso da força bruta, ou mesmo inteligência, mas que é incapaz produzir 1 prego.

É curioso também como o autor vai colocando aos poucos que essa arrogância, a arrogância daqueles que se veem como lobos entre cordeiros, não é nada mais do que uma venda à realidade.

A violência e, portanto, a Guerra são formas extremamente estupidas de se resolver problemas.

Ou como diria Isaac Asimov através de Salvor Hardin na saga Fundação:

 

“A violência é o último refúgio do incompetente”

 

Não é à toa que a classe dos militares, na forma de nobres, samurais, lordes da guerra, foi completamente suplantada pela classe comerciante/industrial/banqueira.

Não é a toa que a maioria dos militares do mundo, hoje não passam de “funças” esperando o cascalho cair no dia 05 de cada mês e aqueles que tentam se aventurar no governo (fora da sua alçada), tendem a criar regimes bem meia boca, tanto que basta observar um “tiquinho” para notarmos que dentre os países desenvolvidos, quase nenhum foi governado por um militar de uniforme nos últimos 70 anos*.

Thorfinn cuidando do bebe em Vinland Saga
Crescer vai muito além de ficar mais forte ou virar um homem frio e estoico (não são a mesma coisa) em Vinland Saga

Mas veja bem, não estou fazendo um caso para o pacifismo, tão pouco faz o Makoto Yukimura. Afinal, se não fosse a habilidade de luta do Thorfinn, ele sua turma não teriam ido muito longe, mesmo que o autor tente mostrar como as tentativas de resolver as coisas na porrada tendem a ser menos efetivas.

É bem óbvio que assim como achar que porque alguém é muito bom em matar os outros, isso não o torna um bom governante ou que matar os outros é uma boa forma de resolver as coisas, acreditar que o pacifismo ou simplesmente se desarmar ante a um mundo cheio de perigos é uma opção razoável é completamente insano.

Imagine se os gregos tivessem se desarmado quando as hordas de Xerxes bateram às portas deles?

Leonidas e os 300 nem todas as guerras sao estupidas
Há algumas ocasiões em que pegar em armas e lutar não é apenas justo, como necessário (sei que esse filme não é nada acurado, mas mesmo assim, vai me dizer que não é foda para caralho?)

Ou mesmo podemos pegar o caso dos Países Baixos (ou Holanda) antes da invasão nazista em 1940, quando os neerlandeses não fizeram investimentos pesados nas suas forças armadas (apenas 4% do PIB, em relação aos 25% alemães) para mandar a mensagem ao ditador de que não apenas eram neutros, como não desejavam conflito algum.

Não há muita necessidade de dizer que isso apenas tornou a vida dos nazistas mais fácil, e que eles pagariam um alto preço quando a fome atingiu o país entre 1944 e 1945 por causa do bloqueio naval aliado e da ocupação alemã.

Para quem se interessar mais, há o excelente livro: Fim de Jogo, 1945.

Mas essa também é justamente uma das razões que Vinland Saga me interessa tanto.

O autor tem plena consciência de que o mundo utópico de Thorfinn é quase impossível, tanto que ele precisa fazer uma viagem até a quase mítica Vinland de Leif Eriksson.

Mas isso não livra a guerra do fato dela ser estúpida.

Como a batalha por Jomsborg nos mostra uma quantidade absurda pessoas morrendo pela ambição desmedida de uns e pela lascívia de outros quando se trata de matar e ser morto.

O caso do senhor de idade que queria apenas voltar para seus netinhos sendo esmagado e dilacerado, de um irmão assassinando outro sem querer, para apenas racionalizar o próprio irmão como mais um inimigo, isso antes de ser transformado em uma almofada de alfinetes pelas flechas do grupo de Thorkell.

Thorkell e sua sede por guerras estúpidas
Seja por ganância ou simplesmente vício em batalhas e sangue, a guerra não é menos estúpida.

São dois casos bem rápidos e que se perderiam bem facilmente no caos da batalha, mas vejo com certa clareza (que pode estar completamente equivocada, por sinal) que essas duas cenas foram colocadas no volume como um monumento ao próprio desprezo do autor pela Guerra.

Veja, ele perdeu algumas páginas com personagens completamente irrelevantes e que morreram apenas alguns quadros depois de forma completamente inconsequente à história.

Quase um easter-egg da opinião do autor.

Um olhar sobre as guerras que não as tratam com heroísmos ou feitos audaciosos, mas de maneira bastante cínica e fria, os conflitos de Vinland Saga são iniciados por ganância, vontade de dominar os outros e os ter como propriedade ou simplesmente um frenesi doentio pela violência.

Nessas guerras as pessoas morrem e com o tempo são esquecidas, assim como o próprio Askeladd, esses 3 coadjuvantes viveram pela violência e morreram por ela.

Ou como já diria um certo judeu do século I em Mateus 26:52:

“…todos os que tomam a espada, morrerão à espada”

Em outras palavras, viva pela espada e morra pela espada.

 

*Espanha, Portugal e Grécia podem ser citadas como exceções, mas não são países centrais para economia mundial, tão pouco para a produção de conhecimento

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Se você gostou do artigo acima talvez queira se aprofundar lendo os seguintes textos:

 

 

 


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