Os heróis de Boku no Hero Academia: All Might, o símbolo da paz

Já faz bastante tempo que não falo sobre Boku no Hero Academia, na verdade, queria d a  r  u  m tempo para ter mais conteúdo no anime.

(Mentira, estava sem ideias mesmo)

(Spoilers até o episódio 50 do anime)

Captura de tela de 2017-10-05 18:25:54

E já que o All Might meio que fechou seu arco narrativo no último episódio do anime, acho um bom momento para escrever sobre ele.

All Might é um personagem bastante interessante, não só pelas suas qualidades, que, em muitos aspectos, podem ser resumidas naquele arquétipo do herói hiperpoderoso e infalível, mas também pelos seus defeitos e idiossincrasias.

Isso acontece justamente porque podemos acompanhar o que acontece por trás das cortinas.

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Em muitos aspectos, ele parece bastante com o Superman no entanto, acho que a parte humorística dele é mais acentuada, o que o torna um personagem que acabo conseguindo me relacionar melhor. A grande questão de muitas histórias do criptoniano, é, ao contrário do All Might, ele parece ser o mesmo com e sem uniforme.

E não falo do mero fato dele não ser o mais brilhante dos heróis, nem ser um professor necessariamente bom, mas também pela própria série ter o cuidado de mostrar seus conflitos internos, medos e ansiedades.

Isso tudo enquanto ele mesmo se coloca como o grande símbolo da paz, liberdade e prosperidade, um símbolo para sociedade, um monumento vivo a ser seguido.

É interessante notar como o autor do mangá se dá o trabalho de mostrar essas duas facetas do All Might de maneira similar ao seu segredo, no caso, o fato de ter levado um golpe mortal do All For One em sua última batalha e, por conta disso, ter uma limitação de tempo em seu “estado musculoso”.

ALL mIGHT VITORIOSO
Nunca é demais repetir como há uma questão metalinguística muito bem-feita pelo autor ao colocar o All Might como um símbolo que sabe que o é e age como tal.

Apenas seus amigos e heróis próximos sabem do seu segredo, da mesma maneira, apenas esse seleto grupo de pessoas conhecem a real personalidade dele, que muito além de herói infalível, é um homem com muitos defeitos e deficiências, mas que mesmo assim dá o seu melhor não só salvando as pessoas, mas se colocando como um símbolo de esperança.

Ao longo da série, começamos a ver a forte influência que o Izuku passa a ter sobre ele, fazendo-o lembrar de si mesmo quando muitos anos antes se colocou em uma situação muito similar a do nosso protagonista.

All Might Hospitalizado.jpg
Ele acaba se mostrando como alguém que embora tenha herdado seu poder, também adicionou muita coisa.

Tudo bem que, ao contrário do Izuku, mesmo quando ainda era apenas o Toshinori, ele já possuía o espírito e a coragem do All Might, mesmo assim, percebemos o tamanho da influência que a sua mestra, Nana Shimura, teve sobre ele, sobretudo em uma de suas características mais icônicas, o sorriso.

A construção desse relacionamento geracional também é outro ponto construído de forma bastante competente: Nana > Toshinori > Izuku.

Sabemos pouco da Nana, mas dá para tirar que ela vivia em uma época muito mais violenta do que aquela que acompanhamos na história, além disso, o All For One ainda estava solto e com toda sua gangue, a qual ele mesmo se refere como “companheiros” (na minha opinião, esse vilão é tão interessante quanto o All Might, e merece um texto só para ele, além do embate final dos dois).

Nana shimura e Gran Torino.jpg
Como mostrado em alguns diálogos, vemos que o Toshinori sabe muito bem a importância de um símbolo, de um Herói, de um ídolo. 

É provável que o All Might que conhecemos seja uma mistura de seus próprios ideias e convicções com as valiosas lições dadas por ela, auxiliada pelo, na época, Best Man Gran Torino. Sem dúvidas, a morte violenta dela provocou um grande abalo emocional nele, visto sua reação igualmente violenta contra o All For One e seu bando.

Falando em era, uma coisa que pode ser dita sem muitas dúvidas é que a própria era na qual os personagens da classe 1-A da U.A. vivem é produto das ações do All Might. Em outras palavras, ele não é apenas um símbolo como algo mitológico e representando um ideal fictício, porém necessário como já diria o autor Claude Lévi-Strauss, ele é de facto um ator, na verdade, o ator responsável pela paz que o mundo vive (na real, o Japão, mas o Horikoshi não quer falar dos outros países , aí dificulta, e não gosto de ficar elaborando teorias, até gosto, mas sou muito ruim nisso).

De onde vem o sorriso do All Might.jpg
É legal saber que a Nana também o influenciou em uma de suas características principais, seu sorriso de abusador.

E já que Lévi-Strauss foi citado, acho interessante pegarmos um pouco das suas contribuições e de Émile Durkheim para o entendimento dos mitos e aplicá-las ao universo de Boku no Hero Academia.

Segundo Durkheim, os mitos, ou representações coletivas, seriam uma forma das civilizações antigas criarem através de símbolos, meios para se navegar pela própria realidade com alguma bússola. Em outras palavras, tais representações são uma forma das pessoas reconhecerem ideias a serem alcançados. É interessante notar que na Grécia, por exemplo, Cidades-Estado mais agressivas e belicosas, como Atenas e Esparta, tinham como seus patronos dois deuses da guerra, Atena e Ares.

Enquanto isso, é pouco provável que grupos como a Ordem dos Franciscanos ou os Jainistas tenham interpretações violentas e possuam comportamentos hostis como seus paradigmas da fé.

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Assim como na modernidade, em alguns momentos é difícil saber se foram as necessidades que criaram os mitos, ou foram os mitos que reforçaram certos comportamentos até que eles se tornaram as normas.

E como o próprio Durkheim aponta, a base de qualquer representação está na separação das coisas por classes, como em Boku no Hero Academia, só identificamos quem são os heróis porque existem aqueles classificados como não-heróis, algo que ao longo do tempo vai se calcificando nas próprias instituições de uma sociedade. Ou seja, uma regulação estatal para seres extremamente poderosos que combatem o crime é um passo quase natural para que o próprio termo herói tenha sentido.

E isso faz ainda mais sentido em uma sociedade onde quase todos têm superpoderes, embora uns sejam mais úteis em determinadas funções do que outros.

Companheiros do All For One e inimigos do All Might
Por favor Kohei Horikoshi, explique um dia se o All Might matou os companheiros do All For One ou não.

isso deságua no que já diria nosso saudoso “Síndrome” em Os Incríveis:

“Quando todo mundo for super, ninguém mais vai ser”

Algo que vemos ser desenvolvido de forma bastante interessante no mangá spin-off da série, o Illegals. 

Joseph Campbell também trabalha simbolismos de forma bastante interessante, dado que ele não foca na religião em si, mas nos heróis presentes nela. Ele aponta que esses heróis são quase sempre ligados à religião pois são avatares dos valores que elas querem passar, em outras palavras, são a personificação humana das virtudes que de outra forma teriam apenas a forma difusa e amorfa de representações coletivas, como Durkheim coloca.

All for One e sua piadinha
Acho que o preto e branco do mangá, aliado ao sombreamento do autor, tornam o All For One uma figura muito mais sinistra por lá, não sei vocês, mas, assim como em mangás de terror, vejo que os desenhos animados não conseguem ter o mesmo impacto do que os quadrinhos ao tentar emular o medo que eles passam.

Em nossa era, as religiões parecem ter perdido bastante da força que tinham no passado, então, não são mais os “Sete Cavaleiros da Cristandade” ou os “Doze Paladinos de Carlos Magno”, mas os Vingadores e a Liga da Justiça que surgem como modelos de heróis. Ou seja, como modelos de virtude, mesmo que eles próprios sejam representados com muitas falhas.

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O All Might consegue ser o símbolo para seus alunos…

Como o próprio Levi-Strauss aponta, os mitos podem mudar de forma, mas dificilmente desaparecem completamente, se no passado haviam histórias sobre arrogância tendo Aquiles ou Jonas, hoje temos as muitas histórias ligadas a personagens dos panteões contemporâneos.

Da mesma forma em Boku no Hero, a diferença é que lá os heróis não fazem parte de histórias que são sabidamente fictícias ou que se passam como reais, não, eles SÃO reais.

E isso é o que torna o trabalho do All Might ainda mais difícil, ser um símbolo enquanto homem, ser falho, mas ainda assim mostrar seu lado mais bonito ao mundo.

Endeavor All Might.jpg
 e para seus rivais.

Ele é alguém que já pode ter até assassinado pessoas (ainda mantenho a crença que ele matou os companheiros do All for One, sobretudo após o Horikoshi ter finalmente matado alguns personagens e a teoria dos olhos negros estar ganhando mais força) e que guarda muita mágoa no coração, alguém que não se importa em aplicar o máximo de violência contra aqueles que julga vilões.

Como ele mesmo cita à mãe do Izuku, a jornada dele está manchada de sangue. Algo que mostra que ele não ele é necessariamente o bonzinho sorridente a todos os momentos.

Ou como diria Nietzsche:

“Tome cuidado, pois ao lutar contra monstros, você pode se tornar um também”

Com tudo isso posto na mesa, percebemos que o All Might é um símbolo justamente por suas ações como ideal, alguém que sempre sorri ante ao perigo, que não desiste nunca, não importa as barreiras, e que sempre se esforçará ao máximo para fazer o bem. Alguém que tem uma luta constante entre seu lado humano de defeituoso e seu lado como herói perfeito e símbolo da paz.

Nana Shimura é avó Shigaraki Tomura
A revelação que a Nana é avó do Shigaraki torna as coisas bastante interessantes daqui para frente, uma vez que isso terá algum peso nas próprias ações do All Might e do Izuku daqui para frente (embora esse último seja muito menos afetado por isso).

Uma luta muito mais difícil e hercúlea do que quaisquer desafios apresentados pelos vilões.

Mesmo assim, ele sempre está lá salvando as pessoas com um sorriso no rosto.

Ou seja, alguém que encarna os dizeres “Vá Além, PLUS ULTRA!!!”.

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Se você gostou do artigo acima talvez queira se aprofundar lendo os seguintes textos:

Referências e Dicas de Leitura:

  1. A teoria do simbólico de Durkheim e Lévi-Strauss: desdobramentos contemporâneos no estudo das religiões
  2. Claude Lévi-Strauss – Mito e Significado
  3. O Herói de Mil Faces (Joseph Campbell)
  4. O Poder do Mito (Joseph Campbell)
  5. Mito e Significado  Claude Levi-Strauss

 

 

 

 

 

 

 


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