Darling in the FranXX… a palavra é construção (análise dos personagens e do universo)

Um dos meus grandes arrependimentos quanto a animes nos últimos anos foi não ter começado a assistir Darling in the FranXX desde o início, tudo por causa do meu preconceito besta com o conceito e design da forma que os FranXX são controlados (fico receoso de chamá-los de mechas por causa das suas característica biológica, então irei pelo seu nome mesmo).

E como alguém que assistiu Kill la Kill acompanhando semanalmente desde o episódio 1, “garoteei” muito forte.

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Quando você estava a todo vapor e de repente despenca… (essa metáfora da pipa do vovô doeu na alma)

Devo dizer que gastei (ou como diriam os marketeiros, investi) um dia de feriado inteiro para assistir os 19 episódios já lançados até o dia que comecei a escrever esse texto. 

(Spoilers até o ep. 19 viu gente).

Mas o que me fez assistí-lo?

Bem, foi basicamente essa cena que apareceu no meu feed de vídeos recomendados do YouYube:

O que mais me chocou (no bom sentido) foi a construção ao redor dela, como algumas ferramentas trabalhadas de forma bastante inteligente conseguem transmitir emoções e certa ligação com personagens que sequer conhecia os nomes ou história.

Algumas escolhas de direção realmente me saltaram os olhos, o uso de passos de dança para que ambos conseguissem passar à área restrita juntos, a iluminação da cidade, a fantástica trilha sonora tocando no fundo (por sinal, tenho um texto inteiro falando sobre como elas são ferramentas de storytelling poderosíssimas, utilizando o caso de You Say Run para exemplificar a tesePor que You Say Run combina com tudo? Pseudo-análise da trilha sonora), o fato dela se chamar “plantation” e da casa do rapaz ser referida por ele mesmo como “gaiola”, o diálogo expositivo bem feito (o que é um tanto quanto raro em animes) e o próprio uso deliberado de um enquadramento mais cinemático.

Em suma, foi uma espécie de amor à primeira vista.

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Ainda a melhor cena do anime.

Pretendo falar de construção aqui, mas não do universo em si, dado que já um vídeo no YouTube sobre o assunto, e justamente do maluco que foi quem desencadeou os 2 minutos de ódio em relação ao plágio há algumas semanas. Por sinal, também escrevi um texto sobre o assunto: O histórico e o presente do plágio na produção cultural brasileira.

Um dos aspectos mais interessantes da série é que, com exceção do primeiro episódio, há uma quase inexistência de cliffhangers, ou seja, de explosões de cabeça que te deixam vidrado com a história e querendo entrar em coma e acordar na semana seguinte para ver a maldita continuação. Lembro de como era assistir Kill la Kill e ficar maluco para saber o que aconteceria na semana que vem, tanto que após certo momento, todos os episódios terminavam assim.

Não é o que acontece aqui.

Em Darling in the FranXX, o que me fisgou realmente foi querer saber mais, saber mais do mundo com certeza, mas, principalmente, saber mais sobre os personagens, sobretudo dos dois protagonistas.

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Você diria não?

Gosto que os 3 primeiros episódios sejam fortemente focados neles dois, a narração que parece vinda dos personagens no futuro não chega a estragar e, em alguns momentos, dá até um profundidade maior. 

O interessante é durante esse tempo, vários aspectos menores começam a ser desenvolvidos, incluindo a antipatia que alguns secundários sentem para com o Hiro e a 02 (colocarei assim, porque já gente chamando de “Zero Dois”, “Zero Two”, e com certeza deve ter alguém que a chame de “Zero Tsu”).

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“Os fracos morrem. Grande coisa”. 02 mostrando que, apesar de tudo, é apenas uma adolescente, com tudo que isso implica.

Se a forma com que os FranXX eram pilotados foi o grande pivô para me desinteressa a princípio, a capacidade desse modelo de servir ao desenvolvimento dos personagens é bastante interessante. Como uma espécie de mistura entre um EVA e um Jeager, as máquinas desse anime possuem tanto o aspecto biológico, quanto o emocional/psicológico dos personagens que as pilotam, na verdade.

Além isso, é a execução prática daquela porra escrota de colocar meninas em forma de mechas que muitas séries e hentais fazem por aí.

FranXX
Vivi para ver garotas mecha virarem um anime sério.

Uma das coisas que começou a me despertar um real interesse em escrever sobre essa história foi o fato dela, ao contrário de séries Evangelion ou Steins;Gate, nas quais temos uma primeira metade focada na construção dos personagens e criação de empatia do espectador para com eles, em Darling in the FranXX, essa etapa vem acompanhada de uma quantidade até bastante grande de drama, mas sem ficar algo muito “melodramático” ou excessivamente miserável, como em Bokurano, por exemplo.

O episódio em que temos contato com outro esquadrão é bastante demonstrativo disso.

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Até o coxinha do 090 consegue ter alguma relevância na construção do enredo, como veremos a seguir.

Nele, vemos que há algo de podre no Reino da Dinamarca, como se já não soubéssemos, e várias pequenas adições são colocadas lá, servindo na lenta e gradual construção do universo e dos personagens, dessa vez, usando o contraste com outras crianças menos afortunadas que nossos heróis.

Além disso, temos o desprezo que a 02 sente pela vida das outras pessoas fica ainda mais escancarado, algo que tratarei com mais profundidade daqui a pouco.

Em seguida, temos uma série de episódios cuja função é nos aprofundar nos personagens secundários, ao passo que também o fazemos com o próprio mundo no qual ele vivem.

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Embora sejam bebês de proveta, os parasitas se mostram mais humanos do que os “humanos de verdade”, desprovidos de emoções e razão para viver senão a continuação da própria existência.

Principalmente no episódio do Zoromo, onde temos contato pela primeira vez com adultos fora da casca e como várias dicas sobre a real natureza das “plantations” e das próprias crianças, além da bola fortemente cantada de que os adultos são imortais. Isso acontece, por exemplo, quando a senhora cita o fato de não ter mais necessidade de experimentar comida, ou que sequer fala com seu “partner”, que, por sinal, estava entubado em uma espécie de câmara de prazer, mas aí já não dá para saber se é tipo uma matrix ou simplesmente um “tubão” de serotonina, mas isso pouco importa.

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A realização final do pornô em realidade aumentada…

Com esse episódio, percebemos que as cidades são desprovidas de vitalidade justamente porque seus habitantes também o são. 

Com os episódios seguintes, vemos como o Mitsuru fica zoado após apenas uma batalha junto a 02 (se puderem, comentem como vocês a chamam, vou de Zero Two, mas queria saber de outros lusófonos), temos a confirmação de que as crianças são completamente descartáveis (ainda não consegui captar porque são chamados de parasites, seria por causa de sua necessidade absoluta dos adultos para as atividades mais básicas? Ou estariam seguindo as nada sutis referências a flores?).

Isso tudo segue, como já havia dito, uma construção lenta e gradual do universo, não temos surpresas muito bombásticas, como a da memória apagada do Hiro, justamente porque várias dicas são dadas anteriormente, como ele não lembrar a promessa feita ao Mitsuru, o que não bate em nada com a personalidade dele apresentada até então.

tropo da mão na parede
Quando o clichê da “parede do amor” tem os sexos invertidos. (Wall Pin of Love)

Até mesmo as milhões de paixonites não parecem algo chato, embora o clichê de menininha da promessa seja bem cafona.

Os próprios Hachi e Nana, que esperava serem alguma coisa a mais, aparentemente, eram apenas parasites que, por alguma razão, foram permitidos continuar. Achava que haveria algo relacionado aos seus nomes serem número em japonês — 8 e 7 respectivamente. Mas, como um comentarista do YouTube muito inteligentemente apontou (todo dia uma surpresa): “ambos não passam de peões que chegaram ao outro lado do tabuleiro”.

Geralmente tendo a dar pouca atenção a episódios colocados na trama para distrair o espectador do drama da série, mas nesse caso, até o episódio da praia serviu bastante para a construção dos personagens e do próprio universo (vide a questão do livro sobre gravidez e os diálogos sobre beijo, além, é claro, da própria descoberta da cidade antiga). Foi um bom uso de um clichê dos animes, me lembrando um pouco o que fora feito no episódio 13 de RE: Creators.

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Quando o episódio da praia acrescenta, e muito, à história.

Até mesmo os adolescentes, todos eles de certa forma dentro de alguns arquétipos clássicos, não são tão irritantes quanto parecem, da menina assertiva, porém emotiva; do egocêntrico; até o estoico babaca, todos passam por transformações e evolução de caráter durante esses primeiros 15-16 episódios. 

 

Cheguei ao ponto de sorrir durante o episódio da guerra dos sexos, como se a felicidade, sabidamente efêmera, das crianças tivesse conseguido me contagiar.

Isso meus caros, é você conseguir construir empatia.

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Fazia bastante tempo que eu genuinamente sentia emoções análogas às dos personagens de um anime.

Isso tudo para desembocarmos em uma mansão na qual quase todas as crianças são apaixonadas por outra, muitas vezes sem serem correspondidas, e em uma 02 cada vez mais instável. Culminando na “fodderzone” na qual o Hiro é colocado por ela.

Mas também pudera, o desapego que ela possui com as outras crianças me pareceu muito com o que os paraquedistas veteranos tinham com os substitutos na série Band of Brothers. Eles (e ela) já viram tantos deles morrendo, indo vindo, chegando todos cheios de energia e vontade, só para terminarem gritando em desespero enquanto a vida deixa seus corpos.

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Quanto mais a 02 se integra ao time, mais começa a ver sua própria “desumanidaede”. Essa série tem uns enquadramentos tão bons que vou te contar viu.

Não só isso, a 02, de certa forma, literalmente sugou a alma de todos aqueles que tiveram a coragem, ou burrice, de pilotar junto a ela (o que me deixa uma dúvida: o primeiro partner apresentado é claramente um adulto, além disso, após ela se separar do Hiro, vários outros adultos são mostrados como os próximos a serem consumidos por ela, alguém sabe explicar isso? Essa eu não entendi).

Tanto que ela passa a ver a todos como meros recursos a serem consumidos, alimentando seu sonho de se tornar humana, por mais que ser humano nesse mundo signifique ser uma casca imortal e vazia. 

É quase como uma desumanização dupla, tanto dela quanto dos outros, isso porque ela não se vê como humana, mas também não consegue se enxergar nos outros, como na sua frase “os fracos morrem, grande coisa”.

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Aquele momento que te colocam na fodderzone.

Quando a via ou ao Zoromo com essa ideia de ser humano não deixo de pensar no Ganância do Full Metal Alchemist Brotherhood, que não buscava realmente o que queria, no caso, não poder, mas amigos.

No caso da 02, ela parece querer ser como os outros, mas, para mim, se tornar humano nesse mundo é justamente perder a sua humanidade.

Daí seu ódio para com o Hiro, seria por que ele não é menininho da promessa e ela começava a ter sentimentos por ele? (O que é a minha hipótese). Seria por que ela se sentia cada vez mais alienada do resto da trupe? 

Isso tudo deságua na sua tentativa de assassiná-lo e descoberta que ele era o menininho da promessa todo o tempo.

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Quando ela diz que só quer conversar…

A grande batalha sobre o último bastião dos Klaxossauros, junto a algumas dicas dadas um pouco antes e depois, nos mostra que as crianças não só são totalmente descartáveis, vide o sacrifico do 090 e da sua galera, como os adultos também. Além do envelhecimento precoce que eles parecem ter alguma ferramenta de envelhecimento precoce, o que faz sentido quando descobrimos que eles são as últimas pessoas férteis, e não seria nada bom para os wannabes do conselho do Evangelion que esse tipo de pessoa durasse mais do que o necessário para sua função, ou seja, matar Klaxossauros e serem descartados.

Por sinal, os caras sacrificam até uma “plantation”, então não são apenas as crianças dos descartáveis para os amiguinhos vivendo tranquilamente em sua estação espacial.

Após isso, temos um momento de relativo relaxamento, quando nossos heróis são meio que abandonados à própria sorte na sua gaiola, agora aberta. Nesse momento, temos um grande desenvolvimento de todos por ali, dado que não são mais parasitas, afinal tomam praticamente todos os deveres em suas próprias mãos (tomara que não sigam com a serem parasitas de flores literalmente).

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Aquela felicidade que você sabe muito bem, é tão fugaz quanto trágica.

Nesse meio tempo, temos a cena da 02 descobrindo uma mecha (não confundir com mecha) de cabelos grisalhos em uma das meninas, deixando claro que eles não são diferentes no que tange o envelhecimento precoce.

Finalmente, a cena do casamento e a infame reação do conselho (e dos babacas de elite), que, como um dos personagens disse “não os permitem sequer o mínimo de felicidade”, só deixa claro que, por mais que tenham algumas regalias em relação aos outros, eles não precisam ser humanos, apenas lutar.

Ainda temos a 02 sendo confrontada pelos seus próprios demônios, algo que quero sinceramente quero ver em maior profundidade, afinal, ela não pode simplesmente sair de tudo que fez e viver uma vidinha feliz com o darling sem nem ao menos ter alguma consequência, mas quanto a isso, só podemos esperar.

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Depois de ter descartado tanta gente como se fossem bagaço de laranja, alguma coisa tem que acontecer, nem que sejam umas alucinações.

Para terminar, vemos os flashbacks do doutor Frank, que são um monumento para o que havia citado acima, ou seja, a construção do universo lenta e gradual. Afinal, não há muitas surpresas nesse flashback, talvez com exceção da esposa dele e sua morte desgraçada.  

Claro, também temos as últimas esperanças com o Papa sendo rasgadas pela sua frieza após o recondicionamento do Mitsuru e da Kokoro, são tão frios que nem sequer os matam, afinal, são importantes assets no seu plano maravilhoso.

aquele momento que você já espera o pior
Aquele sorriso de flashback que você sabe no que dá.

 

A cena é ainda mais triste quando você lembra do fator de envelhecimento precoce, não só não virarão adultos, como

Bem, com todo o esquadrão 13, a Nana e até mesmo o Doutor (nesse caso é mais whishfull thinking do que qualquer outra coisa) mostrando clara desilusão com o sistema e sentimento de rebelião, é provável que esse seja o caminho que sigam.

Pelo menos, assim tudo foi construído até agora.

Se gostou do texto, deixa aí seu comentário e dá uma olhada nos outros. Como sempre, dúvidas, críticas e sugestões são sempre bem-vindas.

Referências e Dicas de leitura:

  1. “A PARADISE WITHIN THEE, HAPPIER FAR” — STRELITZIA IN DARLING IN THE FRANXX” (texto em inglês curto, mas bastante interessante)
  2. Thoughts & Feelings Column: Darling in the FRANXX – Episode Eight (outro excelente texto, nesse caso, focado no episódio da guerra dos sexos).
  3. Wall Pin of Love
  4. O histórico e o presente do plágio na produção cultural brasileira
  5. Por que You Say Run combina com tudo? Pseudo-análise da trilha sonora

4 comentários sobre “Darling in the FranXX… a palavra é construção (análise dos personagens e do universo)

  1. A formula do estúdio Trigger mostra as cara de novo: mistura fan-service com um histórias bem elaboradas para assim atrair os dois escopos do público que consome anime, os brochões e os enjoados das menininhas de olhos grandes. Desse jeito, ninguém pode reclamar que falta substância ou cobertura.

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    1. Bem notado. Nessas séries assim, tomo o fan-service como um estorvo necessário para que o anime vá bem nas vendas de BD no Japão. Mesmo assim, gosto bastante da forma como animes como esse e Kill la Kill tentam racionalizar o fan-service

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