Re:Creators, uma obra metalinguística disfarçada de Isekai invertido

[ATENÇÃO: spoilers da série até o ep. 12].

Esse texto focará mais nos personagens e nas regras do mundo, mas quero fazer outro sobre o aspecto da criação, ou re:criação, de animês e histórias em geral abordada por Re:Creators.

Só um detalhe, metalinguagem é quando uma língua é usada para falar da própria língua. Nesse caso, um animê sobre a produção de animês, com a temática de Isekai Invertido como plano de fundo.

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Por favor, acalme-se, é quase como se o animê estivesse conversando com você.

Re:Creators tem sido uma espécie de montanha-russa de emoções para mim. Não que fique muito emocionado com o que ele mostra (ou não), mas há horas que eu o amo e horas que o odeio. Atualmente, estou uma das fases de amor com a série, principalmente porque ela pode tomar rumos inimaginavelmente interessantes no segundo cour dela.

Mas vamos começar pelo começo.

A principio, imaginava se tratar de uma inversão conceitual de um Isekai (aqueles animes onde, em geral,  um otaku cai em um mundo mágico e começa a fazer tudo o que um otaku não faria). Mas por que invertido?

Bem, ao invés do protagonista viajar para um mundo mágico, são as pessoas desse mundo que vem para nossa querida realidade. Não sei se a franquia FATE pode entrar nesse “gênero”, mas como, na vasta maioria dos casos, os personagens das séries não têm nada a ver com as figuras históricas (para dar uma colher de chá, a discrepância física é bem maior que a de personalidade, então talvez possa cair em liberdade poética), imagino que também possa valer.

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Quando a abertura coloca um easter egg que, provavelmente, indica a morte do teu personagem favorito 😥 . (O cabelo descolorido)

O interessante em Re:Creators é que essas pessoas não veem de mundos paralelos de fato, mas de mundos fictícios, criados para entretenimento. Ou seja, alguns personagens da série, também os são para quem vive no mundo real deles. Um conceito que por si só já é muito interessante e pode levantar várias perguntas, desde as mais existencialistas como o questionamento de Aliceteria ao seu criador do porquê dele ter criado um mundo tão cruel e trágico apenas para divertimento, ou perguntas mais bobas, como a forma que as pessoas do mundo real deles veem animês e desenhos de mangá se eles também são animes? Devemos imaginá-los como seres humanos live action? Ou na verdade eles são um universo fictício que possuem vários outros dentro dele?

Acho que nesse caso, “Uma mentira sobre uma mentira vira de dentro para fora dela mesma”.

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Já vi em alguns lugares a Selesia ser acusada de ser uma personagem muito fraca e talz. Mas acho que não perceberam que ela combate usando um Mech? Vogel = Pássaro em alemão, Chavalier = cavaleiro em francês. Eizen, provavelmente vem do alemão “Eisen” (o “s” é pronunciado com som de “z”), ou seja ferro, Kavalier é a palavra do alemão para cavaleiro.

O primeiro episódio da série simplesmente explodiu a minha cabeça, como se uma ruiva pilotando um Mech, ou Vogelchevalier ou Eizenkavalier (só para constar, vou colocar as traduções dessas maluquices nas legendas da imagens) e lutando contra uma menininha de uniforme militar da Era Vitoriana não fosse o suficiente, eis que esta saca uma PPSh-41 (a icônica submetralhadora soviética da Segunda Guerra Mundial com em forma de tambor), por acaso ela vai descarregar essa arma na ruiva?

Não, ela vai tocá-la como um violino.

Usando um arco com frágeis cerdas?

Obviamente não, ela usa é um sabre de cavalaria, isso para alterar a realidade e desintegrar o Mech. Assim, ela pode invocar ainda mais sabres e jogá-los contra a inimiga.

Como não amar isso?

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Quando alguém toca uma submetralhadora com um sabre de cavalaria para alterar a realidade, pode-se dizer que os roteiristas estavam tomando seus remedinhos?

Pulando um pouco do lero lero, vamos até a batalha no centro de Tokyo, onde a best girl Meteora Osterreich invoca uns lança mísseis para atirar em sua inimiga (nesse ponto estava entre o extasie e o colapso mental). Com isso, encerramos a primeira fase do animê, que durou mais ou menos um episódio.

Se na primeira fase (composta por um episódio) temos lutas por cima de lutas com poderes despirocados, na segunda temos o poder secreto da Meteora, a invocação de muralhas de texto para fazer exposição e explicar da maneira mais chata possível a situação deles. Além do clássico, menina fofinha comendo lixo industrializado MacDonald’s, por um instante, pensei em realmente dropar esse desenho, pois já esperava que ele se torna-se algum harém com ocasionais batalhas entre menininhas, ou um Rolling Girls 2.0 (quem viveu o hype pós Kill la Kill da época, sabe do que estou falando).

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Meteora (Österreich = Áustria), melhor garota e maior criadora de diálogos expositivos desde Psycho Pass e Fate Zero.

Felizmente, pela vontade dos deuses criadores, isso não aconteceu, e além de termos a adição de mais personagens ao enredo, começamos a parte mais interessante desse animê. Isso é, a conversa que ele tem sobre a própria indústria do entretenimento japonesa. Claro, em geral, ele está focado no que classificaríamos aqui como “cultura otaku” (ou algo do tipo).

Mesmo assim, temos uma leve e sutil abordagem dessa indústria.

Isso até o episódio 12, mas como já tinha esse texto antes dele sair, preferi deixar assim e fazer outro mais focado no futuro.

A começar pelos personagens, que são quase todos alguns arquétipos de protagonistas e antagonistas da indústria.

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Os poderes da doce Magane funcionam basicamente assim: ela conta um mentira “esse bicho vai ter pegar”, ou “esse ataque não pode me machucar”; daí temos uma resposta que, em geral fica como, “de jeito nenhum” ou “isso não vai acontecer”. Basicamente negando a mentira, ou seja, criando um duplo negativo (que torna-se um positivo). Logo, uma mentira sobre uma mentira torna-se verdade.

Selesia é a heroína e protagonista de uma fantasia com elementos de sci-fi, um tanto temperamental e quase uma heroína “lawful good” (além de ter como inimiga, uma organização chamada Avalon Brigade, o que já ganha alguns pontos só pelo namming), Meteora Osterreich era apenas um personagem ferramenta em um RPG, mas que tem poderes similares ao do Batman (ou seja, deixar as pessoas ao redor dela menos inteligentes par que ela pareça mais).

Mamika é quase uma menininhas comum de histórias de garotas mágicas, com praticamente todo o pacote incluso, com exceção do fato dela parecer atacar as pessoas sem muitas razões para isso. Aliceteria é uma espécie de Gutz (pelo menos foi o que me lembrou), só que bem mais emocional, talvez como ele era no começo. Ainda temos o vilão que luta do lados heróis, sidekick virando capanga e o menino piloto de Mech com habilidades de luta muito acima do esperado.

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Esse é um dos meus quadros favoritos da série inteira. Götz von Berlichingen (o nome do golpe de invocação através da manopla dela) é dado em referência ao cavaleiro homônimo. Ele era conhecido como o “Eisernen Hand” (o mão de ferro) por causa de usar uma prótese no lugar do braço perdido em batalha. Além de ser um guerreiro sinistro e ter uma área de museu só para ele (vale a pena visitar), ficou famoso por uma peça escrita por Goethe, na qual ele teria dito a frase “ele pode me lamber o cu”, por isso, até hoje o nome dele meio que virou uma invocação desse xingamento. Essa informação final encontrei na wikipedia, então esteja avisado, mas o autor provavelmente soube desse nome por causa da nau capitânia mandada pela Marinha de Guerra Alemã durante a Segunda Guerra Mundial ao Japão.

Mas acima de tudo isso, temos Altair (ou a princesinha de uniforme militar), o que é mais interessante nela é sua história e razão de poderes quase ilimitados. Veja, em Re:Creators, as habilidades dos personagens são definidas pela sua aceitação pelo público, o que significa que algo não só deve ser publicado, ou pelo menos postado, mas deve ser aceito por uma grande quantidade de fãs.

Ora, Altair é uma doujinshi (ou dojinshi) de uma personagem secundária de um MMORPG (ou minha memória diz isso), ou seja, qualquer adição feita por terceiros é imediatamente adicionada, fazendo-a um canivete suíço de poderes (Caçador de Marte, é você?).

O que é mais fascinante nisso tudo, é os personagens deixam de pertencer aos seus autores, principalmente a Altair, quando são publicados, entrando no imaginário dos fãs e criando vida lá. Muitas vezes, os escritores e/ou desenhistas nem pensam em certos aspectos ou prestam atenção em alguns detalhes que nós fãs tão minuciosamente encontramos.

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A expressão de quem LITERALMENTE é hack (in your face Madara).

No excelente livro Fan Fiction and Fan Communities in the Age of the Internet: New Essays, em um dos capítulos, um dos autores fala sobre a criação de vidas inteiras para alguns personagens criados quase inteiramente pelos fãs, ela dá o exemplo do personagem Boba Fett de Star Wars, como grande figura. Se me lembro bem, ele tem umas 4 frases no Império Contra-Ataca e basicamente morre de forma patética no Retorno de Jedi. Mesmo assim, os fãs da era pré-internet criaram um hype tão grande ao redor dele, que não só uma vida, mas uma civilização inteira foi criada ao redor dele.

Eles deixam de ser figuras simplesmente imaginárias quando passam e receber sentimentos dos próprios consumidores das obras, vejamos os exemplos do Kira, Goku, Batman ou infindáveis outros que captam nossa imaginação, nos fazem discutir e, até mesmo, produzir novos conteúdos.

O próprio criador consegue, por alguns instantes, dar poderes muito altos à Selesia, mas estes só duram alguns instantes, pois faltava contexto e desenvolvimento para o público se apegar.

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Quando você é quase um figurante, mas os fãs te colocam no devido lugar.

Claro, no contexto japonês, é menos comum que fãs cheguem a produzir obras sobre seus ídolos 2D, como acontece no ocidente com os heróis Marvel e DC sendo eternizados por milhares de pessoas ao longo de décadas.

Mesmo assim, isso acontece de várias maneiras um pouco mais sutis, seja em One Punch Man, Boku no Hero Academia, Kill la Kill ou até mesmo Gintama (não queria falar dele porque é muito óbvio). Nessas obras encontramos fãs como nós, que se inspiram e referendam suas obras e personagens favoritos de várias maneiras distintas.

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Is that a motherfucking Jojo reference?

No final das contas, como Re:Creators mostra, um personagem não ganha vida quando é desenhado ou escrito, mas quando é amado ou odiado pelos sua audiência.

E se você chegou até aqui sem ter assistido a série, é sério, assista.

Se você gostou do texto, entre no blog tenho certeza que vai encontrar algo que goste. Além disso, ainda fiz outro sobre Re:Creators, que segue o link aqui embaixo:

RE: Creators, uma história sobre a criação de histórias

 

Referências e dicas de leitura:

Livro: Fan Fiction and Fan Communities in the Age of the Internet: New Essays


7 comentários sobre “Re:Creators, uma obra metalinguística disfarçada de Isekai invertido

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