Madoka Magica Rebellion: a melhor continuação desnecessária

[ATENÇÃO: muitos spoilers e texto altamente opinativo]

A maioria dos animes planejados para poucos episódios (menos do que as séries intermináveis da Jump) que fazem sucesso desproporcional com o planejado, tem uma necessidade financeira muito grande de produzir continuações. Em muitos casos elas são boas, em outros dão um gosto agridoce, mas nesse, o que temos é um excelente filme, desnecessário, mas muito bom.

O final da série Madoka Magica é muito bem fechado e da pouquíssima margem para expansões, mas sabemos que isso não ia ficar assim por muito tempo. Algum tempo depois do fim da exibição do seriado na TV, os projetos dos vindouros filmes apareceram. Os dois primeiros recontam a história em sua maior parte, adicionando algumas cenas e elementos, no entanto, podem ser vistos muito mais como remasterizações (no sentido de aumento de orçamento e mudança de algumas partes que a equipe de direção achou por bem serem retiradas ou adicionadas).

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A história começa com o cotidiano de garotas mágicas que, através do amor e do poder da amizade, salvam o dia enquanto se divertem. Se existe uma antítese de Madoka Magica, acho que essa frase resumiria bem.

Já Rebellion (ou Hangyaku no Monogatari) é uma continuação, a qual adiciona muitos elementos e desenvolve outros já apresentados. O filme gerou cerca de 2,2 bilhões de ienes nos cinemas japoneses (cerca de 70 milhões de reais) e foi lançado pouco tempo depois em DVD e Blu-Ray nos Estados Unidos.

Nesse filme, Homura, e não Madoka, é a protagonista. Num enredo repleto de mistérios e simbolismos, tantos que algumas pessoas tendem e colocá-lo como um filme arrogante, por se achar inteligente demais e perder o foco em várias cenas que parecem confundir mais do que dar respostas. Não concordo com isso, mas devo dizer que tive que dar uma pesquisada para sacar uma boa parte dos simbolismos apresentados.

O que o torna tão interessante para mim é o fato dele desenvolver alguns pontos da série original, enquanto cria outros. Aprendemos que os Kyuubei na verdade são grandiosíssimos filhos da puta, pois, além da teoria de entropia do universo ter sido desbancada, eles planejavam de fato mudar o sistema de produção de energia criado pela Madoka, o qual impedia as garotas mágicas de se tornarem bruxas, levando-as antes que isso acontecesse, apenas por pura ganância e vontade de aumentar sua produtividade.

Como um fanservice, ainda temos minha personagem favorita, a Sayaka Miki, sendo uma grande badass e mostrando que praticamente superou suas antigas dúvidas e ressentimentos (apenas para voltar com esse último elevado à máxima potência no final).

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Sayaka agora está muito mais madura e poderosa. E essa conversa no beco realmente levanta pontos interessantes como, se uma ilusão for melhor que a realidade em um nível tão desproporcional, vale mesmo a pena sair dela?

Outros aspectos interessantes são que, ao contrário da maioria dos filmes desnecessários, Rebellion não repete todos os temas da série original, nem tenta ser uma historinha sem consequências. Além de podermos entender muito melhor como funciona o processo das bruxas e como é estar nele. Claro, agora sabemos que ele era para ser o fim da saga, mas não se pode simplesmente terminar uma franquia tão lucrativa (Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco que o digam).

Ele consegue ser de fato surpreendente, a não ser, é claro, que você já soubesse que a Homura se tornaria uma anti-Madoka ao final e construiria um labirinto de bruxa grande o suficiente para envolver todo o cosmos, nesse caso, realmente, ele não surpreende.

Mas se você, assim como eu, faz parte da plebe, então podemos dizer que houveram algumas surpresas bem interessantes. Claro, o relacionamento da Bebe (personagem que todos parecem estar de acordo que é tão irrelevante quanto moe) e da Mami parece um pouco como algo tirado de uma fanfic, além de alguns pequenos buracos. Por exemplo, por que o poder de bruxa da Sayaka lhe permite invocar sua forma degenerada (Oktavia), enquanto Bebe se torna humana ou ela mesma vira sua forma degenerada? Claro que vão aparecer mil explicações e xingamentos, mas em uma batalha de tudo ou nada, não deveria ela invocar todos os seus poderes também?

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Dança de ballet mais prazerosa da história dos animês.

 

Não quero parecer que fiquei babando esse filme, pois ele precisa de algumas aulas de como contar uma história, o número de vai-e-vem nele é grande demais e alguns diálogos adicionam muito pouco ao resto do enredo. Mas acima de tudo isso, temos o final.

Devo dizer que gostei do final, principalmente por o achar convincente do ponto de vista da queda da Homura de anti-heroína à vilã. Claro, isso pode se dever ao fato de ter assistido a série algumas vezes seguidas e ver esse filme durante umas duas semanas quase todo dia (#bizarro).

Vamos pensar um pouco, Homura repetiu o mesmo mês por infindáveis vezes, quase sempre terminando em tragédias atrás de tragédias, mas por que ela fez isso? Pela Madoka? Será pelo amor dela à Madoka? Talvez. Mas após tantos anos (ela repetiu o loop umas 100 vezes segundo o autor, isso dá uns 8 anos) a perseguindo desse jeito, para apenas perdê-la para sempre (não só isso, mas o universo inteiro nem saber de sua existência), a mente e coração de Homura podem ter desenvolvido uma forma muito mais degenerada de afeto, um amor doentio.

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Mesmo mantendo sua postura calma e discurso firme, Homura dá alguns sinais que está entrando em colapso ao longo do filme.

O amor egoísta e malicioso dela, em contraste com o abnegado da Madoka. Mesmo assim, vamos pensar um pouco, todo o plot do filme vem do fado dos incubadores (ou “incubators”, mas acho, nesse caso, o anglicismo desnecessário) buscarem entender o ser “Madokami”. Caso a “Akumura” (sim estou usando esses nomes de fanboy) não chegasse a existir e fazer o que fez, os incubadores teriam capturado a Madoka e destruído sua lei de ciclos, na realidade, ao tomar sua parte humana, Homura a salvou e, potencialmente, toda a espécie humana.

Mesmo sendo fruto de um ato egoísta e que, de certa forma, negou todo o sacrifício da Madoka, Homura acabou salvando o universo ao aprisioná-lo. Um lugar onde ela possui poder quase absoluto, até sobre as memórias.

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Já amou alguém tanto que reescreveu todo o cosmos para ficar com ela?

Se a série de Tv desconstruiu o gênero de Garotas Mágicas e a glamorização de crianças na frente de batalha, o filme tentou fazer o mesmo em relação ao “poder da amizade e do amor”. No final, o mundo em que as garotas formam um verdadeiro time, lutando contra inimigos não muito perigosos e se divertindo não passa de uma ilusão, um conto do vigário para aprisionar a Madoka. A realidade é muito mais dura, muito mais fria.

Muitos fãs odiaram o filme, outros o desprezam, alegam que ele transborda de simbolismos desnecessários e os diálogos temáticos acabam sobrando durante boa parte dele. No entanto, o que realmente enfurece essas pessoas é o final. Como já disse antes, gostei bastante dele, principalmente depois de ver tantas vezes e sair com meu entendimento.

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Adicionando tudo, temos que lembrar que Homura passou pelo processo extremamente traumático de se tornar uma bruxa. Difícil não ficar biruta depois disso.

Possivelmente essa seja a rebelião nesse filme, a vontade egoísta do indivíduo, que vai ao nível de reescrever todo o universo para alcançar o que quer, contra o heroísmo e altruísmo que tanto vemos vangloriados. A rebelião contra o que os próprios fãs queriam ver, negando o falso mundo de felicidade e amor e o trocando por outro falso mundo, mas com muito menos felicidade e muito menos amor. A diferença é que nós sabemos que ele não é real, nesse caso, o simulacro sempre irá parecer uma prisão.

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Nem sempre um sorriso quer dizer que estamos felizes, as vezes, ele significa justamente o oposto.

Talvez essa seja parte da mágica desse filme, algo completamente desnecessário e que poderia ser simplesmente uma tentativa de alongar a vida da franquia, foi, para o bem ou para o mal, motivo de muita discussão e controvérsia.

Essa continuação era desnecessária? Provavelmente sim. Mas se for para fazer algo desnecessário para ganhar mais dinheiro, que seja algo realmente bom e que faça esse lucro ser mais justo. Para as pessoas que odiaram esse filme, não existem informações novas que cagam a série de Tv, então não precisa odiá-lo, apenas ignorá-lo.

Enquanto a série de Tv teve um final fechado redondinho (tirando o fato da Homura compartilhar quase tudo que sabe com o Kyuubei), esse filme praticamente grita por uma continuação. Que talvez exista… ou não.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


5 comentários sobre “Madoka Magica Rebellion: a melhor continuação desnecessária

  1. Eu assisti várias e várias vezes, de novo e de novo, este filme. Minha opinião pode ser parcial, visto que eu me identifico muito com os dramas internos de algumas personagens (Sayaka e Homura), e o Rebellion aborda justamente isso.

    Boatos de que já há uma continuação em produção (Concept Movie). Dizem que lança este ano (2017), mas quem sabe né? Vou esperar e tentar me manter vivo até lá. Esta possível continuação é uma das únicas razões da minha espera, hahaha!

    Sobre o artigo,
    nunca tinha ouvido a terminologia arrogante para descrever um filme com muito simbolismo, mas também não sou lá cinéfilo de plantão. Mas eu adoro esse simbolismo, é um dos grandes motivos pelo qual eu assisto e gosto de Madoka.

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  2. pelo q li, isso não é canônico da serie original, é um filme que tem sua própria historia original com base no mangá(lembrando que o mangá foi feito ”DEPOIS” do anime).
    ou seja os dois primeiros filmes são apenas q quem não viu a serie, depois finaliza com seu próprio final

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  3. Eu sofri um pouco para entender os diálogos entre o Kyubey e a Homura (e ainda não entendi tudo 100%) enquanto esta se dava conta de que, afinal, era uma bruxa. Não captei a maior parte dos simbolismos que dizem existir na história, mas até onde compreendi, posso concluir que o defeito desse filme foi justamente esse final aberto, em contrapartida ao final do anime. Levando em conta o tamanho do poder da Madoka, e o que aconteceu naquela cena final, na qual a Madoka quase se lembra de quem é, foi bem ingênuo da parte da Homura achar que iria conseguir segurar sua amada por muito tempo dentro da caixinha. A menos que, por prever que um dia Madoka se tornaria sua inimiga, ela já estivesse resignada com essa possibilidade, e estivesse aproveitando um tempinho ao lado dela antes de perder tudo.
    A pergunta que ficou foi: o que Homura quis dizer ao afirmar que talvez destruísse aquele universo criado por ela após acabar com todos os espectros? Qual o motivo disso, se nele ela vivia bem com a Madoka?

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    1. Esse filme realmente levanta muitos debates, mas acho que a própria personalidade dela mudou quando absorveu todo o caos do universo e criou um labirinto do tamanho do cosmos

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