As lições de vida em Mob Psycho 100

O humor e constantes quebras de expectativa em Mob Psycho 100 são muito divertidos e, em geral, bem feitos, mas acho que sua principal contribuição está nas pequenas lições de vida, voltadas, principalmente, para o público otaku.

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Mesmo sendo o ser mais poderoso do mundo, até agora, Mob não usa seus poderes para oprimir ou submeter outras pessoas às suas vontades.

Nesse mundo, cuja existência de poderes telecinéticos aparições paranormais são comuns para um minoria, o jovem Mob é diariamente explorado pelo seu “mestre” trambiqueiro, Arataka Reigen. Mesmo não tendo nenhum poder de verdade, Reigen consegue enganar o ingênuo Mob (que é o psíquico mais poderoso que se tem notícia) fazendo-se passar por um experiente e sábio mestre da telecinesia.

Mesmo com seus poderes absurdos, Mob não consegue tudo o que quer, por exemplo, sua paixonite (sei que hoje falam crush, mas no meu tempo de colégio era paixonite mesmo), que acaba se cansando de poderes mentais e vai para algo bem mais mundano. Mob também percebe que seus poderes são muito perigosos, mas graças a Reigen (sim, ele mesmo), percebe que eles são como uma faca, podem fazer coisas bem impressionantes (estou pensando naquele churrasco), mas também podem machucar, se usados de forma maldosa.

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Teruki nos é apresentado como a antítese de Mob, ele é bonito, popular, ambicioso e não hesita em usar seus poderes contra os outros.

É aí que as grandes lições de MB começam a aparecer. Em sua primeira luta contra outro telecinético, Teruki Hanazawa, nos deparamos com um grande choque de visões de mundo. A princípio, Teruki acha que ele é o único telecinético do mundo, embora diga que já estivesse preparado para a existência de outros. Isso se funde com o fato que ele se acha o “personagem principal” do mundo. Por causa de suas habilidades únicas, vê todos os outros como figurantes ou escadas no grande filme vida.

Mob mostra a Teruki o quão vazio ele é sem seus poderes. Por causa disso, ele perde o controle.

Sua arrogância em considerar outras pessoas como menores por não ter habilidades que ele nem sequer teve de esforçar para ter, cria paralelos com muitos comportamentos que, muitas vezes, inadvertidamente temos. Qual a lógica de se orgulhar tanto por causa de etnia, religião, nacionalidade, classe social, e etc., quando, na maioria das vezes, essas são características que já vem conosco “de fábrica”. Qual a sua contribuição por ter pais ricos ou de um determinado país (Itália, é você?)? Claro, algumas delas podem ser mudadas, mas é provável que a maioria dos cristãos brasileiros fosse muçulmana, caso tivesse nascido na Turquia.

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Mob tira tudo o que Teruki tanto se orgulha, sua beleza, poderes, dignidade e orgulho.

Ver outras pessoas de cima já é algo extremamente “questionável”, para dizer o mínimo, ainda mais se isso for baseado em algo cujo indivíduo não tem responsabilidade alguma.

A luta em si é muito interessante, quando temos essas antíteses batalhando, mas sua consequência é ainda mais. Após perder o cabelo (uma metáfora para sua beleza), Teruki consegue fazer Mob sair do controle. E este mostra o quão superiores são seus poderes em relação aos dele. Com essa derrota esmagadora, ele perde sua dignidade (metáfora da nudez), beleza (mesmo sendo dos carecas que elas gostam), poderes (temporariamente) e orgulho de ser o grande indivíduo especial e acima das “outras formas vida”. No final, graças aos poderes absurdos do Mob, ele percebe que, não fossem seus poderes, ele seria apenas mais uma pessoa qualquer, como diria Neo Mr. Anderson, “just another guy”.

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Essas transições entre animações “comuns” e outras feitas a mão ou, como nesse caso, com base d’água, é um dos pontos fortes da parte artística de Mob Psycho 100.

Acho que todos já tivemos, uma vez ou outra, algum sentimento de superioridade em relação aos outros (sinto isso todas as vezes que meus vizinhos ligam funk ostentação no volume máximo). Mas será que ser bom em alguma coisa, nos faz realmente sair da plebe? Será que correr mais rápido, cantar mais afinadamente, jogar futebol melhor, nos faz seres humanos melhores?

(Dica: NÃO)

Reconhecer nossas limitações e potencias é o primeiro passo para evoluirmos. Pode parecer um grande clichê e um pouco pedante, mas conhecer a si mesmo é mais importante do que entender a geopolítica do chifre da África ou saber fazer regressões estatísticas de cabeça.

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No final, Teruki percebe que mesmo seus poderes psíquicos, não são nada na frente das titânicas capacidades de Mob. No fim, ele não passa de uma pessoa mediana.

Outra grande lição que quero discutir (porque existem tantas que tive que focar somente em duas) é a desilusão que muitos de nós temos com a própria realidade. Muitas vezes fracassamos e enfrentamos infindáveis dificuldades em nossas vidas, como consequência, acabamos nos retirando dela, nos entregando aos hobbies e mundos mágicos virtuais, com efeito, nos retirando da própria realidade.

Nada é tão óbvio quanto os membros da “Garra”, que se, assim como Teruki fizera, se prendem aos seus poderes telecinéticos e tentam “mudar o mundo” (frase bonita para “fazer todos se dobrarem diante de suas vontades egoístas”). Praticamente todos os membros dessa organização sofreram de uma forma ou de outra e acabaram se limitando aos seus próprios poderes. Se retiraram da realidade para criar seu próprio mundo, onde são valiosos e necessários.

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Por favor, não veja isso como um crítica a cosplayers, mas a pessoas que negam a realidade para viver em seus próprios mundinhos.

Essa organização acaba sendo mais opressora do que a própria sociedade e essas pessoas, que se opuseram aos padrões dela, se mostram ainda mais vilanescos e tirânicos.

A grande surpresa que temos entre o final do episódio 11 e início do 12 é que não será Mob em seu “super-modo-berserk-clichê-de-shonen” que irá enfrentar os generais da garra, mas o grande Reigen. Assim como seu discípulo fez com Teruki, Reigen destrói o sentimento de superioridade de seus inimigos com seus poderes esmagadores.

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A derrota da garra não é só por combate, mas moral.

Mas Reigen não para por aí. Felizmente ele faz um dos discursos mais interessantes dos últimos anos nos animes e, em algo similar ao curta “MeMeMe” (se você não assistiu, veja) mostra que se retirar do mundo real e viver as fantasias multicoloridas e vibrantes é na verdade a pior escolha. Os membros da garra escolheram usar seus poderes de forma extremamente tola, para algo como conquistar o mundo e fazer os outros seres humanos se submeterem a eles, a venerá-los, colocá-los em pedestais, pois são os únicos que realmente importam.

Quantas vezes agimos assim sem nos perguntar o por quê? Nos perguntamos muito pouco ao infligir dor, mesmo que através de palavras. As vezes nos tratamos como os únicos que sofrem, que têm demandas, frustrações e sonhos.

Eles buscam revoluciona o mundo sem nem ao menos revolucionar a si mesmos. Se quisermos começar uma revolução, por que não começar em nossas vidas? Por que não arrumar o quarto ou aprender a fazer algo que não seja frito antes de tentar teorizar sobre qual a melhor maneira da economia caminhar?

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Quantas vezes assistimos animês de escolinhas, passamos dias e mais dias, perdendo incontáveis horas para conseguir objetivos “falsos” dentro de mundos artificiais, quantas vezes investimos nosso tempo, dinheiro e energia em conquistas completamente inócuas? Ou quando vemos algo relacionado ao Japão ou de nações desenvolvidas e amaldiçoamos com todas as forças ter nascido onde nascemos, ter de pegar horas e horas de ônibus/metrôs lotados todos os dias, para ser pilhado por bandidos de terno e gravata ou com uma arma na mão?

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O líder regional da Garra é o avatar desses pensamentos, quase um espelho de nosso lado obscuro que não queremos olhas.

Não me entenda mal, esse texto não foi para fazer críticas bobas a quem deseja mudar sua vida através de inteligência e trabalho duro, muito menos pagar de grande mídia e taxar pessoas que fazem atividades, como jogar games, fazer cosplay e modelagem como “retardadas” ou imbecis incapazes de viver no mundo real. Na verdade minha intenção é justamente o contrário, uma vez que eu mesmo faço tais também.

A questão que quero levantar é se não nos investimos tanto nessas atividades de forma improdutiva, vejo pessoas que trabalham comercializando cosplays, jogando games profissionalmente ou customizando model kits e dioramas para vender, como grandes exemplos de quem conseguiu unir seu hobby com a vida real (esse foi meu viés capitalista saindo).

Todos somos os personagens principais de nossas vidas, querendo ou não. Mesmo que existam tantas adversidades e que a sociedade esteja estruturada para que apenas quem está no topo continue lá, enquanto o resto de nós plebeus fique satisfeito com nossas migalhas (sim, esse foi meu viés socialista saindo).

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Como o mestre Reigen disse, “se quiser chegar alto, deve viver na realidade”.

Gostaria de saber o que acham. Será que falei muita bosta enquanto divagava? Ou algo aqui faz sentido?

P.S.: esse texto ficou impressionantemente personalista, até tentei fazer mais frio, mas preferi deixar assim no final.

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No final das contas, o Teruki até que virou um cara legal, ajudando o irmão do Mob e os outros psíquicos. Realmente quero ver mais dele em futuras temporadas (que talvez nunca existam ;-; )

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