#34 | Baía de Edo, 1853: o Shogun se ajoelha aos bárbaros

Em 8 de julho de 1853, os residentes de Uraga, nos arredores da sempre em expansão capital do Japão feudal, Edo (atual Tóquio), se depararam com uma visão assustadora, quatro navios de guerra estrangeiros entraram em seu porto natural sob uma pesada nuvem negra, em nenhum deles via-se velas, como em navios costumeiros. Eles eram duas fragatas movidas a vapor (tecnologia de ponta na época) rebocando duas outras corvetas, essa frota era comandada por um obstinado e tempestuoso americano, Matthew Perry.

O comodoro Matthew Calbraith Perry havia chegado com uma pequena, porém poderosa, força com intenção de abrir as portas de um país em seclusão por mais de dois séculos.

10_010_GospelOfGod
Campanhas pela cristianização e pela expansão do Destino Manifesto eram mais do que comuns durante todo o século XIX nos Estados Unidos.

Por muitas décadas, navios partindo dos portos na Nova Inglaterra buscaram as águas japonesas, ricas em peixes e baleias – na época eram caçadas pelo seu óleo. Esses navios navegam nas águas ao norte de Hokkaido, eles eram proibidos de atracar na costa ou em qualquer porto, mesmo para concertos de emergência ou busca de suprimentos para uma tripulação desesperada após meses no mar.

Com o término da conquista da fronteira oeste do continente norte americano (o “Wild West”) e a vitória esmagadora na guerra contra o México (1846-1848), os estadunidenses agora buscavam uma nova fronteira, e ela estava destinada a ser o Pacífico.

Com efeito, a situação pendente no Japão não poderia durar, fossem os interesses americanos colocados em questão. Por isso, a missão de Perry tinha como objetivos base a permissão dos náufragos e de navios avariados aportar na costa japonesa (e destes serem tratados humanamente), além da permissão do uso de um ou dois portos para provisões de carvão e água.

18_000_Perry_Brady.jpg
O próprio Comodoro Perry foi um grande apoiador da expansão norte-americana no Pacífico, participando da aquisição do Havaí e da ilha Midway.

A mensagem que Perry levava tinha sido assinada pelo presidente dos Estados Unidos e era endereçada aos líderes japoneses, supostamente ele buscava apenas abertura comercial e igualdade em uma parceria de livre troca de bens e movimentação de pessoas.

Com o desenvolvimento da tecnologia, a viagem de São Francisco à Edo levava cerca de 18 dias, com isso, os americanos começavam a se perguntar se o destino manifesto deveria ser de fato limitado à América do Norte. Muito já se falava de levar o evangelho, liberdade e democracia aos povos “bárbaros” do oriente, vendo os impérios europeus conquistarem praticamente todos os continentes não ocidentalizados do mundo (ou seja, tudo à exceção das Américas e da Europa), comerciantes e clérigos norte americanos começavam a ficar preocupados com cada vez menos espaço para agirem sem interferência imperial da Europa.

A elite samurai japonesa, sabendo das derrotas humilhantes do Império Qing durante conta o Império Britânico e os consequentes tratados desiguais, que basicamente colocaram a nação chinesa de joelhos e permitiu o uso indiscriminado do ópio, não viu outra opção senão assinar um pequeno compromisso da abertura de alguns portos e da permissão de atracagem de emergência. Mesmo assim, em um ano, Perry voltaria com uma frota ainda maior e os obrigaria a assinar um acordo desigual final.

Com isso, um tipo impar de imperialismo começava a nascer, onde ao invés de criar colônias, domínios e protetorados como a Europa fez, o domínio indireto através de governos “amigos” ou fantoches que seriam colocados no poder se necessário. O Japão, por sua localização e situação geo-política igualmente singular foi o primeiro alvo dessa mistura de “Destino-Manifesto” da liberdade e civilização, combinada com imperialismo.

Mesmo que a abertura do país tenha possibilitado sua industrialização e modernização, os japoneses, não veriam os próximos acontecimentos da mesma forma. Na realidade, os 15 anos após a primeira chegada de Perry iriam transformar o Japão de forma tão completa que se um samurai tivesse caído em coma em Edo em 1853 e acordado em 1868 no mesmo lugar, poderia apostar que havia acordado em outro planeta…

… e talvez não estivesse errado.

Dúvidas, críticas e sugestões são sempre bem-vindas.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s