#33 | Japão, o país que viajou no tempo

Há algumas décadas, não era incomum se deparar com afirmações de que os japoneses eram meros imitadores da tecnologia estrangeira e que não possuíam nenhuma capacidade criativa. Mesmo que essa afirmação esteja errada em muitas formas, adquirir métodos e tecnologias estrangeiras não é uma tarefa fácil. A velocidade com que o Japão passou de um nível tecnológico quase medieval para a era do vapor e do diesel foi impressionante, principalmente se tratando de uma nação que esteve reclusa por quase 400 anos – sendo 262 desses em quase total isolamento do mundo.

Quando o contato entre diferentes nações ou civilizações é pequeno, conseguimos observar um desenvolvimento distinto nas matrizes tecnológicas, isso acontece pois os insumos e necessidades variam de forma muito grande de uma região para outra. Ora, os Maias tinham conhecimentos astronômicos muito avançados, se comparados com sua tecnologia militar e de navegação, nórdicos possuíam no século XII avançada tecnologia de navegação, mas sua agricultura era extremamente rudimentar. Mesmo os implacáveis romanos aprenderam muito com as civilizações que julgavam bárbaras e sem dignidade de existir.

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Enquanto na Europa e nos Estados Unidos a paisagem rural já estava mudando rapidamente desde antes de 1800, o bucolismo ainda reinava no Japão até meados de 1875.

O desenvolvimento tecnológico nunca é uniforme em todas as áreas e escolher artificialmente qual será mais benéfica não é brincadeira de criança. No caso do Japão, copiar outras nações era de vital importância, obviamente tentar desenvolver sua tecnologia naturalmente era um suicídio nacional, já que levaria séculos para se equiparem aos impérios ocidentais de 1850. É claro que casos como o destroyer britânico copiado de forma quase perfeita pelos japoneses, ajudam a dar forma a preconceitos.

Mas o que fazer quando se sai de um regime semifeudal liderado por uma casta militar que, embora muito rica em cultura, filosofia e arte, fosse extremamente pobre em abraçar ideias de transformadoras, para um sistema imperial centralizado na figura de um garoto de 14 anos* cujas ambições estavam em transformar seu pequeno arquipélago numa das grandes potências globais?

Um número sem par de estudantes japoneses foi mandado há mais de um século para quase todos os países com qualquer aparato tecnológico ou industrial. Enviados com o objetivo de escolher o que seria mais benéfico ao Japão e perfeicionar o aprendizado desse conteúdo. A lista de países era vasta, a maioria foi enviada para as três principais potências industriais, militares e navais, o Reino Unido, a França e os Estados Unidos, além de alguns para as autocracias militaristas, o Império Russo, a Prússia e o Império Otomano. Alguns poucos foram mandados até para países atrasados, como Egito, Etiópia, e Peru, na esperança de obter algum conhecimento específico que as grandes potências tinham deixado passar.

Segundo o próprio imperador Meiji:

“Conhecimento deve ser buscado ao redor do mundo para assim fortalecermos as fundações do governo imperial e da nação” 1.

Mesmo que esse empreendimento tenha gerado resultados impressionantes no longo prazo, seu rendimento em curto prazo é duvidoso. Ora, o que é útil para um líder mundial em produção industrial pode não ser apropriado para os recursos humanos e materiais do Japão do século XIX.

Inicialmente, a busca mundial japonesa os levou a adotar à organização e técnica militar francesa (lembrar que isso aconteceu relativamente próximo às Guerras Napoleônicas, o último grande conflito até então); o sistema financeiro e bancário norte-americano e o estilo industrial britânico.

Em todas as ocasiões esse modelos foram descartados em favor de nacionais ou modificados para atender as especificidades nipônicas**.

Em nenhum campo o Japão foi tão bem-sucedido assimilando técnicas modernas ocidentais como na manufatura.

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Em pouco tempo, consultores e oficiais ingleses passaram a ser vista comum em Osaka e Tokyo, trazendo seus costumes e cultura.

A cidade de Osaka foi o primeiro palco da nova indústria japonesa, primeiramente no setor têxtil e depois com luzes elétricas alimentadas por turbinas a vapor. Nesse aspecto, as máquinas japonesas eram praticamente idênticas às britânicas utilizadas em Lancashire e em Bombaim. Até mesmo tijolos vermelhos industriais usados na construção das fábricas haviam sido importados da Inglaterra. Seria até difícil distinguir as fábricas japonesas das britânicas, não fossem as vestimentas e construções tradicionais nipônicas as cercando.

Durante, pelo menos, os primeiros 35 anos de industrialização no Japão, técnicos ingleses eram uma imagem quase indissociável nas fábricas em Osaka. Mas em alguns anos os próprios japoneses desenvolveriam técnicas próprias de produção e, mesmo que sua tecnologia fosse bem antiquada e valores brutos de produção bem baixos, a eficiência das fábricas ao início da Primeira Guerra Mundial já se igualava às inglesas.

Durante todo esse tempo, uma grande parte dessas empresas também manteve correspondentes em tempo integral nas principais capitais da Europa, principalmente Londres e Paris. Estudantes de engenharia e outras ciências regularmente traduziam e enviavam ao Japão artigos de maior interesse que apareciam na cena científica ocidental.

Várias características únicas da indústria têxtil japonesa também se destacam, como o uso primário de meninas adolescentes oriundas de áreas rurais como mão de obra entre 1890 e 1940. Mesmo que a maioria das nações tenha seguido caminho parecido, a proporção com que os japoneses o empregaram supera qualquer um.

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Já em 1875, ferrovias ligavam a maior parte da região de Kanto e havia uma linha direta entre Tokyo/Yokohama e Osaka

Mas existe uma diferença abissal entre educar uma elite e transformar senhores de terra e comerciantes em verdadeiros capitalistas e treinar uma mão de obra que basicamente era transportada do século XII para o XIX em algumas semanas.

As taxas de renovação de pessoal eram extremamente altas, mais de 50% das meninas tinha menos de 1 ano de experiência no setor têxtil e 50%-65% de cada grupo contratado deixavam à fábrica nos primeiros 6 meses.

Essas grandes taxas de “turnover” se deram por várias razões muito diversas, que vão desde questões culturais, como o fato das mulheres, ao se casarem, tornarem-se donas de casa, às condições de trabalho, mais pesadas que em outros setores, como restaurantes e lojas de conveniência.

Essa dinâmica praticamente impossibilitou a entrada e de novos competidores no setor industrial japonês, dando ainda mais espaço para a criação dos Zaibatsu (falarei disso futuramente). Já que a constante necessidade de treinar novos funcionários torna o empreendimento mais caro e menos dinâmico, dando grande vantagem competitiva a quem já estava presente no mercado.

Em outras palavras, não foi apena a toa que o setor industrial japonês ficou na mão de cerca de 5 famílias já nos anos 1920.

*Mustuhito, o Imperador Meiji, tinha 14 anos quando foi restaurado como governante de facto do Japão

**No caso militar, o modelo francês foi trocado pelo prussiano pelo fato dos primeiros terem levado um pau de louco dos últimos em 1871.

Referências:

  1. Ryusaku Tsunoda, William Theodore & Donald Keene. Sources of The Japanese Tradition. Columbia University Press.
  2. Gary Saxonhouse. A Tale of Japanese Technological Diffusion in The Meiji Period. Michigan University Press.

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