#32 | Prostituição e o Shogun

Por muito tempo os grandes comandantes militares japoneses, os Dáimios, também eram donos das vidas dos habitantes de suas posses. Muitas vezes vilarejos inteiros eram crucificados, os aldeões eram enterrados vivos ou sumariamente executados, seja por desobedeceram alguma ordem direta, falharem em algum objetivo ou, simplesmente, pela mera vontade ou interesse do senhor.

Jovens garotas e garotos não escapariam a esse controle total, muitos eram tirados das suas casas ainda jovens para servir nos castelos de seus senhores, indo desde concubinas e cortesãos, até meros objetos sexuais sem vontade própria (não raramente meninas e meninos de 7 anos de idade ou até menos). Isso começou a mudar com a ascensão de Oda Nobunaga e de Toyotomi Hideyoshi, que implantaram várias leis limitando o poder dos senhores sobre os servos, embora essas mudanças servissem mais para aumentar o controle do governo central do que de fato para proteger os camponeses.

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Cortesãs eram geralmente ligadas ao prazer sexual do seu senhor. Embora isso não fosse uma condição intrinsecamente necessária.

Foi durante o período Tokugawa (1600-1868) que a prostituição se tornou uma atividade oficialmente legalizada. Mesmo assim, nas três grandes cidades (Edo, Kyoto e Osaka), Tokugawa Hiedata (o 2º shogun Tokugawa) tenha a restringido a zonas especiais licenciadas, conhecidas como Yuukaku. Essas regiões especiais só seriam banidas durante a ocupação aliada após a Guerra do Pacífico em 1945, mesmo assim, a prostituição continuaria de forma ilegal em vários estabelecimentos até esta ser banida em 1956.

Depois da proibição, a maioria dos bordeis trocariam seus nomes para Café ou, no caso dos mais caros, Ryoutei (restaurante de luxo servido por Geishas), dessa forma, poderiam continuar suas atividades de forma legal, tendo alguns serviços de fachada e um pouco de corrupção para funcionar. No entanto, isso que não significa que todos os estabelecimentos com esses nomes sejam fachadas para prostituição.

Ainda assim, por causa da corrupção das autoridades e várias falhas no processo de fiscalização, a maior parte das regras estabelecidas por Tokugawa Ieyasu (o 1º shogun Tokugawa) foram ignoradas. Termos que ele havia pensado e planejado para a nação, como “áreas restritas” e “prostituição secreta” se tornaram palavras vazias enquanto as casas de prostituição operavam abertamente. A prostituição de homens e mulheres logo se espalharia para o resto das grandes cidades do país. 

Porém, houveram diversas tentativas de proibir tal atividade, vindas principalmente de grupos de samurais que viam os negócios como degradantes para sua honra.. Ao longo de alguns séculos, essa dicotomia entre um negócio extremamente lucrativo e um contexto sociocultural bem adverso a ele, fez com que a prostituição tomasse caminhos únicos no Japão.

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Pode parecer estranho para quem acha que a história segue um processo de progressismo imparável. Mas o Japão era extremamente aberto quanto à sexualidade durante a Era Tokugawa. Desde a Restauração Meiji, a nação seguiu um gradual processo de recrudescimento do sexo e da vida social.

Primeiramente, deve-se lembrar que embora não fosse legalizada, a prostituição já era cena comum na maioria das grandes casas nobres. O que diferenciava era que antes das leis de Tokugawa serem introduzidas, o controle sobre quem trabalhava nessa área era delegado por nobres ou comerciantes com o consentimento dos primeiros. Além disso, era comum que muitos samurais, desde os de rendimentos mais humildes, até grandes senhores, tivessem algumas amantes e até garotos, o que não era algo secreto e, na maioria das vezes, não influenciaria de forma significativa a vida pública deles.

O cerne das leis sobre a prostituição estava no fato do Shogun querer reverter a situação dos senhores terem total controle sobre quem trabalharia no ramo do sexo. O que era problemático de várias formas, dado que muito senhores impiedosamente tomavam esposas, meninos e meninas ainda não casadas de camponeses, comerciantes ou basicamente qualquer um que não fosse seu senhor ou “suserano”*.

Para garantir suas leis, Ieyasu tornou o tráfico humano ilegal, previamente, senhores poderiam realocar trabalhadores de um lado para o outro ou vender seres humanos como propriedade se quisessem.

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Não era incomum homens irem para a prostituição, seja ela forçada desde a infância ou após certa idade na adolescência. Alguns serviriam como amantes de poderosas senhoras, mas a maioria seria propriedade de algum senhor ou servos em bordéis.

Com as novas leis, não só o tráfico de seres humanos era proibido, como agora não seriam mais as casas nobres e sim as autoridades do estado central que determinariam se se uma mulher estaria elegível para ser vendida ou alugada por sexo, pelo menos na teoria.

Na prática, garotos tão novos quanto 10 anos eram vendidos para, supostamente, serem atores de Kabuki ou servirem em casas nobres. Meninas até mais novas também eram vendidas sob a desculpa de que seriam treinadas para serem Geishas.

Tais mediadas serviam aos interesses de Tokugawa, que ansiava pela centralização do poder da nação após o fim da era dos conflitos internos e guerras civis que reinara antes de sua tomada do poder. Em nenhuma cidade pode-se ver com tamanha clareza essas medidas como em Edo, capital do shogunato. Com o sexo comercial legalizado, logo os bordéis tomaram conta do bairro Yoshiwara e o distrito da prostituição nasceu. Esse não era um negócio simples, pois os donos destes estabelecimentos eram bastante ávidos para eliminar a concorrência e justificar seus negócios. Para tanto, uma série de pré-requisitos e licenças eram necessárias para o funcionamento dos bordéis, gerando um enorme fluxo de caixa para o shogunato e muita corrupção de oficiais.

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Yoshiwara cresceu e se tornou um dos principais pontos de reunião em Edo. Após a Restauração Meiji e a mudança para Tokyo, o distrito floresceu mais ainda.

Ambas as partes estavam mais do que satisfeitas em sacrificar a “pureza” e ideais da ordem social em prol do crescimento econômico gerado pelo mercado da prostituição. No entanto, as garotas, que na maioria das vezes não tinham escolha e eram “prostituídas” (algumas famílias vendiam suas filhas por algum dinheiro em casos de necessidades extremas, outras até mesmo tinham o máximo de filhos que podiam propositalmente, para que estes fossem vendidos em certa idade), eram quem tinha de arcar com as consequências. Elas seriam conhecidas como “famoso produto” ou “mulheres sem vergonhas”, marcas que uma vez postas sobre elas, as impossibilitavam de atuar em praticamente qualquer área que não a prostituição, salvo alguns raros casos em que grandes Dáimios se apaixonavam por uma delas ou que fugiam como amantes de algum aventureiro.

Nessa dinâmica, autoridades, donos de bordéis e as famílias que vendiam ou alugavam suas filhas para obter algum lucro, tinham resultados positivos tanto econômicos quanto políticos. No final das contas, as únicas pessoas que poderiam considerar esse negócio como indesejável e imoral eram as próprias garotas, que, para todos os sentidos, não tinham voz alguma.

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A maioria das prostitutas até a Era Taisho não tinha muita escolha quanto a sua “carreira”.

Dúvidas, sugestões e críticas são sempre bem-vindas.

*Termo muito anacrônico

Rerefências:

  1. Amy Stanley. Selling Woman: Prostitution Markets, and the Household in Early Modern Japan. University of California Press, 2012.

  2. Clifford Geertz. The Interpretation of Cultures. New York Books, 1973.

  3. Mark Teeuwen & Kate Wildman Nakai. Lust, Commerce, and Corruption: An Account of What I have Seen and Heard, by an Edo Samurai. Columbia University Press, 2014.

 

 

 

 

 

 


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